A crise do sistema de parceria
O sistema de parceria criou conflitos porque os colonos dependiam das contas administradas pelos proprietários e tinham pouca capacidade de controlar a comercialização da produção. Os problemas envolviam preços, pesagem do café, despesas cobradas dos colonos e interpretação dos contratos — estudos sobre Ibicaba destacam que os colonos tinham pouca capacidade de acompanhar o que acontecia entre a entrega do café e a prestação final de contas.
Na teoria, o sistema parecia promissor: trabalhando alguns anos nas colônias brasileiras, o imigrante poderia rapidamente melhorar sua situação econômica. Na prática, foi o oposto. A dívida inicial — viagem, transporte até a fazenda, instalação — raramente diminuía com o trabalho; em muitos casos, crescia. Thomas Davatz, suíço que viveu essa experiência em Ibicaba e publicou um relato detalhado sobre ela, descreve como a essas despesas se somavam outras cobranças — entre elas o chamado "Kommissionsgeld", juros e conversões de moeda da dívida europeia — cuja legitimidade ele próprio questionava. Como a produção e as despesas de cada família eram contabilizadas pela administração da própria fazenda, o colono dependia inteiramente dela para saber se estava quitando a dívida — ou afundando nela.
A situação chegou a um ponto crítico no final de 1856 e início de 1857, quando ocorreu a conhecida revolta dos colonos de Ibicaba — um episódio que ganhou repercussão internacional e contribuiu para uma forte revisão da imagem do sistema de parceria na Europa.
Historiadores que estudam o sistema de parceria apontam que, na prática, muitos colonos viviam em condição análoga à de servidão por dívida: presos à fazenda até quitarem débitos que, corrigidos por juros e descontos definidos pelos próprios proprietários, raramente diminuíam. O paralelo com a escravidão não é incidental — a crise de Ibicaba ocorreu ainda durante a vigência da escravidão no Brasil, abolida somente em 1888, e imigrantes livres europeus chegaram a trabalhar lado a lado com pessoas escravizadas nas mesmas fazendas de café. Foi exatamente esse contraste entre a promessa de trabalho livre e a realidade vivida pelos colonos que alimentou a repercussão internacional do caso.
Georg Meyer durante a crise de Ibicaba
É justamente nesse momento que Georg Meyer aparece de novo nos documentos — não como um nome perdido entre os imigrantes, mas entre os signatários de manifestações coletivas dos colonos:
- 22 de dezembro de 1856 — seu nome aparece entre os signatários de um compromisso coletivo dos colonos de Ibicaba Wikisource, p. 233.
- 6 de janeiro de 1857 — os colonos enviam uma segunda carta urgente ao cônsul suíço David, relatando a situação e pedindo uma investigação com múltiplos juízes Wikisource, p. 164.
- 30 de janeiro de 1857 — é formada uma comissão eleita pelos próprios colonos para representá-los diante das autoridades, composta por Thomas Davatz, Felix Hoffmann, Kaspar Märki, Franz Holle, Johannes Schlittler, Heinrich Ryffel, Georg Meyer, Johann Krättli, Heinrich Altmann e Friedolin Glarner Wikisource, pp. 236–237.
- 13 de fevereiro de 1857 — a pedido dos colonos, chegam a Ibicaba o médico suíço Dr. Heusser e o chanceler Diethelm, enviados para investigar as condições da colônia e produzir um relatório Wikisource, p. 186.
- Em outra passagem do livro de Davatz Wikisource, p. 153, Georg Meyer questiona o diretor da fazenda, Jonas, sobre o baixo valor pago por um lote de 40 alqueires de café que o próprio Jonas já havia reconhecido como particularmente pesado.
Os documentos permitem afirmar que Georg Meyer estava envolvido nas discussões coletivas dos colonos e integrava formalmente a comissão eleita para representá-los perante as autoridades — participando ativamente da liderança da revolta de Ibicaba.
Quando Meyer e Murbach se tornam uma família
Depois da viagem feita juntos em 1852, Meyer e Murbach seguem para fazendas diferentes — mas, mesmo à distância, a amizade entre as duas famílias continua, resultando mais tarde até em casamentos entre os filhos.
Uma das filhas de Georg Meyer, Anna Meyer (1838–1895), nascida em 28 de janeiro de 1838 em Unterschlatt, aparece posteriormente no Brasil como esposa de Johann Jacob Murbach (1843–1912) — filho de Hans Jakob Murbach e Rachella Keller, de Gächlingen (veja Unterschlatt e Gächlingen). A união é confirmada pela árvore do FamilySearch, com perfis para Anna Meyer e Johann Jacob Murbach. A fonte é particularmente forte: um registro paroquial de 1867, relativo ao batismo de Barbara Murbach, identifica-a como "filha legítima dos colonos Johann Jacob Murbach e de sua mulher Anna, nascida Meyer." Barbara nasceu em 2 de abril de 1867, na propriedade São Lourenço, de São Luiz Antônio de Souza Barros, e foi batizada em 17 de agosto de 1867. O documento é importante porque não apenas apresenta o nome Anna: registra explicitamente "nascida Meyer".
A história fica ainda mais interessante com uma segunda união: Frederico Meyer, identificado em documentação brasileira como filho de Giorge Meyer, casou-se com Maria Murbach. A certidão de óbito de Frederico — fonte primária brasileira — registra: "Frederico Meyer, suíço, filho de Giorge Meyer", falecido em 12 de maio de 1908, às 11h, na Fazenda Faxinal, em Botucatu, vítima de anemia tropical, casado com Maria Murbak. O declarante foi Jacob Murbah, e a certidão nomeia os nove filhos do casal: Anna, Eliza, Suzana, Nênê, Henrique, Benedicta, Jorge, Daniel e Jacob. A árvore do FamilySearch lista ainda uma décima filha, Izabel Meyer, não mencionada nesta certidão.
PDF Baixar o documento — Certidão de óbito de Frederico Meyer, Botucatu, 1908Gerações seguintes
Os descendentes
Os filhos desses casais já nascem no Brasil e passam a formar novas gerações de famílias paulistas — inicialmente em Botucatu, onde são registrados os filhos de Jacob Meyer, entre eles Esechias Meyer, e depois na cidade de São Paulo, onde são registrados os filhos de Esechias e onde Jacob vem a falecer, no bairro do Capão Redondo (veja a Árvore Genealógica).
A trajetória, em resumo
Duas colônias
Depois de Santos, os caminhos se dividem: Meyer segue para Ibicaba, Murbach para Biry/Rio Claro. Veja A Chegada ao Brasil.
A crise de Ibicaba
Georg Meyer participa de manifestações coletivas dos colonos durante a revolta que ganhou repercussão internacional.
Anna Meyer × Johann Jacob Murbach
A primeira união entre as duas famílias, comprovada pelo registro de batismo de sua filha Barbara, em 1867.
Frederico Meyer × Maria Murbach
Uma segunda união entre as famílias, documentada pela certidão de óbito de Frederico, na Fazenda Faxinal, Botucatu.
Os descendentes
Os filhos desses casais já nascem no Brasil — inicialmente em Botucatu, e depois na cidade de São Paulo, onde nascem os filhos de Esechias e onde Jacob vem a falecer, no Capão Redondo.
A pesquisa genealógica do século XIX é construída juntando pequenos fragmentos de documentos suíços, alemães e brasileiros. E, neste caso, os fragmentos já formam uma narrativa bastante coerente: duas famílias suíças de comunidades vizinhas atravessam o Atlântico no mesmo navio em 1852, seguem para colônias diferentes, enfrentam as dificuldades da imigração agrícola e, poucos anos depois, seus descendentes passam a formar uma mesma rede familiar através de casamentos.