Por que o Brasil?
O Brasil da década de 1850 vivia uma transformação profunda. A economia paulista estava cada vez mais ligada ao café, enquanto a escravidão continuava sendo a base de grande parte da economia agrícola. Ao mesmo tempo, o fim do tráfico transatlântico de escravizados, em 1850, aumentou a preocupação dos fazendeiros com o futuro da mão de obra das grandes propriedades — e a imigração europeia passou a ser estimulada.
O governo imperial e empresários particulares incentivaram a chegada de europeus, e fazendeiros paulistas experimentaram sistemas destinados a empregar trabalhadores livres estrangeiros nas lavouras. Entre eles estava o sistema de parceria, desenvolvido por fazendeiros como o senador Nicolau Pereira de Campos Vergueiro: a família imigrante recebia uma parcela de terra ou determinada quantidade de pés de café para cultivar e colher, e parte da produção pagava as despesas e dívidas contraídas durante a imigração. O que no papel parecia um bom negócio para os colonos se mostrou, na prática, bem diferente — como veremos a seguir, no capítulo No Brasil.
A subida ao planalto: a Estrada Velha de Santos
Mesmo depois de mais de um mês em alto-mar, a viagem não terminava no cais de Santos. Antes da inauguração da estrada de ferro Santos–Jundiaí, em 1867, a única forma de subir da baixada litorânea até o planalto paulista era pela Serra do Mar — uma escarpa íngreme que ganha quase 800 metros de altitude em poucos quilômetros, uma das mais abruptas do litoral brasileiro.
Essa subida era feita pela Estrada Velha de Santos (também chamada de Caminho do Mar), que passava por Cubatão e, em seu trecho mais íngreme, seguia por um calçamento de pedra conhecido como Calçada do Lorena — construído ainda no final do século XVIII para tornar a subida viável a tropas de burros. Imigrantes recém-chegados faziam o trajeto a pé ou em lombo de mula, por uma trilha estreita em meio à mata atlântica densa e úmida, frequentemente sob neblina e chuva.
Depois de vencer a serra e alcançar o planalto, perto da cidade de São Paulo, os imigrantes ainda enfrentavam mais alguns dias de viagem por terra — passando por Jundiaí e Campinas — até alcançar as regiões cafeeiras do interior, como Limeira, Rio Claro e Cordeirópolis. Um relato de época, de Carlos Perret Gentil (A Colônia Senador Vergueiro, 1851), descreve essa etapa final: para quem viajava sozinho a cavalo, o trajeto de Santos a Ibicaba podia levar cerca de quatro dias; para as grandes caravanas de famílias — com crianças e bagagem em carros de duas rodas puxados por mulas — a viagem se estendia por duas semanas ou mais. A alimentação na estrada era basicamente carne-seca e farinha de mandioca, totalmente estranha aos imigrantes europeus.
Meyer em Ibicaba, hoje Cordeirópolis
Depois da chegada ao Brasil, Georg Meyer aparece associado à Fazenda Ibicaba, propriedade do senador Vergueiro — uma das experiências mais importantes do sistema de parceria em São Paulo. A região da antiga fazenda corresponde hoje ao município de Cordeirópolis, no interior paulista. A própria documentação histórica de Ibicaba identifica a fazenda como um importante núcleo de colonização de suíços e alemães; a Fazenda Vergueiro recrutava imigrantes europeus e financiava sua viagem, criando uma relação econômica de dívida e trabalho.
A presença de Jorge/Georg Meyer nas listas de Ibicaba, levantadas pelo pesquisador Fernando C. Gomes Venzel (autor de Imigrantes Germânicos e Suíços na Província de São Paulo – Século XIX), coincide com a documentação suíça e de Hamburgo que identifica Georg Meyer como homem de Unterschlatt.
Os Murbach seguem para Biry, em Rio Claro
Os Murbach tiveram uma trajetória diferente depois da chegada: aparecem entre os colonos de Biry, uma das colônias rurais importantes da região de Rio Claro. O levantamento de Venzel lista explicitamente os "Colonos de Biry" e inclui diversas famílias Murbach, entre elas Gaspar Murbach e Elisabeth (com os filhos João, Jorge e Verena), George Ruedi e Úrsula Murbach, Hans Jacob Murbach e Rachel Koller (com os filhos George e Jacob), Henrique Murbach e Barbara Fischer, Jacob Murbach e Elisabetha, e João Murbeck e Elisabeth Schnetzgler.
Assim, a documentação permite visualizar dois destinos diferentes para grupos que haviam começado a viagem juntos: Meyer → Ibicaba e Murbach → Biry/Rio Claro — uma das peças mais interessantes desta história, porque as duas famílias voltam a se encontrar na geração seguinte (veja No Brasil).
"Escravos brancos": a reportagem do Estadão
Em outubro de 2026, o jornal O Estado de S. Paulo publicou uma reportagem baseada em arquivos diplomáticos suíços, mostrando como milhares de imigrantes que vieram trabalhar nas fazendas de café do sistema de parceria — o mesmo sistema vivido pelos Meyer em Ibicaba — acabaram presos a dívidas "impagáveis", a ponto de o próprio cônsul suíço no Rio de Janeiro, Henri David, alertar Berna sobre o que chamou de uma tentativa de "introduzir no Brasil a servidão dos brancos para substituir a escravidão dos negros".
PDF Ler a reportagem — "Nos cafezais paulistas, os 'escravos brancos'", O Estado de S. Paulo